O trabalho do futuro e a alienação do presente

O trabalho mudou de cara, está cheio de novos fetiches. Do skate à piscina de bolinhas, das divisórias de vidro aos sistemas de avaliação, que permitem ao funcionário avaliar o chefe e vice-versa, além do excesso de expressões americanas que foram importadas para a plataforma de labor, como team leader, feed back, costumers, entre outras. Tudo isso mostra que o trabalho adquiriu nova morfologia.

De fato, estamos assistindo a uma verdadeira revolução industrial, que tem em seu bojo a própria revolução tecnológica. Tudo acontece a passos tão largos e rápidos que mal conseguimos entender o que está se passando.

Só para se ter a ideia da dimensão desse fenômeno, espera-se que, em menos de 10 anos, cerca de vinte novas profissões surgirão. Nossos filhos vão trabalhar num cenário que é completamente diferente do atual. Por isso, refletir sobre o modo de educá-los e prepará-los é importante, afinal são eles que lutarão no mercado, sempre competitivo, por novas oportunidades de trabalho.

A tecnologia possibilita análises inimagináveis, de alguma forma, tudo vai estar ligado a ela. O direito, a engenharia, a medicina, a construção civil. Tudo. Até a arte será feita com tecnologia. Eis que os novos “Michelangelos” e “Rafaeis” já esculpem, hoje, a partir de matrizes projetadas em sistemas supercomplexos. Nada mais é empírico.

O trabalho não vai acabar, mas vai mudar. A equipe da Cognizant, uma das maiores empresas de tecnologia de informação do mundo, se baseou em macrotendências atuais em diversas áreas, como meio ambiente, migração, biotecnologia e demografia, para criar possibilidades. Todas as profissões atuais serão readequadas ou customizadas para estar em harmonia com a revolução tecnológica. Não é só o processo judicial que será digital, mas todas as audiências serão feitas por teleconferência. O coach será digital, as consultas médicas serão digitais e haverá, nas empresas, gestores responsáveis por integrar máquinas e pessoas. Robôs trabalharão ao nosso lado e compartilharão o mesmo espaço físico. A agronomia sofrerá enorme interferência da tecnologia e a engenharia, idem.

De acordo com o estudo The Future of Jobs Report 2018, do Fórum Econômico Mundial, 7 milhões de empregos serão extintos até 2021. Por outro lado, essa “revolução” criará 58 milhões de novos empregos líquidos em 2025, na área da tecnologia. Os robôs cumprirão 52% das tarefas profissionais correntes, ou seja, mais da metade de todas as atividades realizadas nos locais de trabalho serão feitas por máquinas, contra 29% atualmente.

A automação não será destrutiva, mas gradativa. Não sem considerar que esta revolução está sendo feita através do cérebro humano, responsável por desenvolver e alimentar as máquinas, que hoje criam novas tecnologias. Haverá espaço para o homem e um leque inimaginável de novas possibilidades. Ninguém imaginava que digital influencer fosse ser profissão algum dia. Hoje é, e são muitíssimo bem remunerados. O porvir está acontecendo.

Mas é preciso fazer uma reflexão sobre o trabalho da atualidade. Apesar de todos os avanços tecnológicos e dessa verdadeira revolução industrial, o trabalho continua sendo marcado por servilismo e alienação, e, na realidade, não tem nada de inclusivo e humano. Tentaram, sim, mascarar a exploração e a violência, inclusive psicológica, com o uso de sistemas de metas e pagamento de prêmio, variáveis e bônus. Mas as metas são inalcançáveis e implantadas através de psicoterror. Criaram a figura do team líder, mas as avaliações são subjetivas e manipuladas, o que retira toda sua credibilidade.

Ainda que se possa andar de skate ou deitar em piscinas de bolinhas, ou que a as estantes estejam lotadas de post its e que todo mundo tenha um notebook, tudo isso não passa de um discurso criado para tamponar a verdade. O trabalho continua sendo palco de exploração, a linha de montagem foi substituída pelas metas. A cronometragem do tempo agora é feita através de tablets e smartphones.  O trabalho nunca termina às 18 horas, está em todo tempo e lugar. Ou seja, mudaram-se os atores, mas o filme é o mesmo. Que venham todas as novas profissões, mas que, junto, se garanta a liberdade e o espaço para, pelo menos, ser e existir ao lado dos novos colegas, os robôs.

Maria Inês Vasconcelos

Maria Inês Vasconcelos

É advogada trabalhista, palestrante, pesquisadora e escritora.