O legado do PAT: 50 anos de um pacto pela alimentação, saúde e produtividade

Ao completar cinco décadas, programa consolidado como instrumento de política pública enfrenta o desafio de conciliar inovação tecnológica com a preservação de sua função social
Firmin António*

Há 50 anos, o Brasil criou uma das políticas públicas de alimentação do trabalhador mais bem-sucedidas do mundo. O Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT) nasceu de uma visão desenvolvimentista, simples e poderosa: pessoas bem alimentadas vivem melhor, têm mais saúde e produzem mais para o país.

Escrevo estas linhas com a experiência de quem acompanhou essa trajetória desde o início. Quando cheguei ao Brasil, na década de 1970, o país vivia uma intensa transformação econômica e industrial. Milhões de brasileiros chegavam aos centros urbanos em busca de oportunidades, enquanto empresas precisavam lidar com os desafios da produtividade, da saúde e do bem-estar de seus colaboradores. Um deles era melhorar a qualidade da alimentação dos trabalhadores.

Foi nessa conjuntura complexa que trouxemos a experiência do vale-refeição, criada pouco mais de uma década antes na França. Assim, participamos da construção de uma parceria inovadora entre o governo e a iniciativa privada, consolidada pela Lei nº 6.321, de 14 de abril de 1976, que instituiu o PAT.

Essa visão ganhou escala nacional com o lançamento da primeira solução de vale-refeição no Brasil, que completa 50 anos juntamente com o PAT. Ao longo dessa trajetória, desenvolvemos alianças bem-sucedidas, contribuindo de forma permanente para a longevidade do programa, para o avanço da economia, para o fortalecimento da produção de alimentos, para a abertura de novos restaurantes, para a ampliação da arrecadação tributária e, sobretudo, para o bem-estar dos trabalhadores.

O PAT acompanhou a evolução do Brasil, superando períodos de hiperinflação, grandes mudanças econômicas e diferentes transformações tecnológicas. Os antigos vouchers em papel deram lugar aos cartões eletrônicos, também uma iniciativa pioneira da nossa marca, ampliando a segurança, a praticidade e a eficiência do sistema.

Novas tecnologias e soluções digitais têm potencial para melhorar a segurança e a experiência dos usuários. Porém, é importante que quaisquer evoluções, como as que ocorreram ao longo dessas cinco décadas, preservem aquilo que sempre fez do PAT uma política pública bem-sucedida: sua finalidade social.

Estudos revelam que a flexibilização sem controles rígidos apresenta evidentes riscos de desvio de finalidade do benefício para fins não alimentares, como apostas on-line e bebidas alcoólicas.

Os recursos destinados à alimentação do trabalhador devem cumprir efetivamente esse propósito, contribuindo para a saúde, a qualidade de vida e a produtividade. Assim, o debate sobre o futuro do programa deve ser conduzido com equilíbrio, responsabilidade e diálogo entre todos os envolvidos. Modernizar não significa suprimir suas características essenciais. Pelo contrário.

Hoje, mais de 23 milhões de trabalhadores, vinculados a quase 500 mil empresas, são beneficiados pelo programa. Seu impacto social é expressivo, já que a maioria dos beneficiários recebe menos de cinco salários mínimos. Para milhões de famílias, o vale-refeição e o vale-alimentação representam acesso regular à alimentação no dia a dia.

Mas o Brasil tem diante de si a oportunidade de ampliar o PAT e proporcionar alimentação de qualidade para outros 20 milhões de trabalhadores que ainda estão fora dele. Esse deve ser o propósito e o verdadeiro objetivo de todos.

Minha confiança continua a mesma de 50 anos atrás. O Brasil seguirá avançando ao conseguir combinar desenvolvimento econômico, inovação e dignidade para quem trabalha e move a nação todos os dias.

*Firmin António é fundador da Ticket no Brasil, ex-CEO da rede hoteleira francesa Accor no país e atua há 50 anos no desenvolvimento do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT)

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